Lilliput
Regressei onde passei muitos momentos da minha infância e juventude. A um sítio onde as árvores eram grandes, os espaços imensos, as distâncias infindas. Onde, para chegar ao figo maduro, precisava de pular.
Mas hoje regressei já crescido, de outro tamanho. E agora, tudo parece pequeno. Sobre todas as coisas há uma nova perspectiva, um ângulo distinto. Algumas não as reconheço sequer.
Da pena de Jonathan Swift nasceu Gulliver, um viajante que enviou para destinos remotos. E para este, quando tudo era novo, ele encontrou Brobdingnag onde se sentia pequeno e tudo era grande. Como aquela sensação que temos quando viajamos e parece que não vai caber tudo na nossa mochila de memórias, de tão enormes os sentimentos e experiências. Como Gulliver, deixamo-nos por vezes carregar na palma da mão de desconhecidos, que nos querem guardar no bolso do casaco e correr a mostrar aos amigos. Somos muitas vezes atracções nos destinos onde éramos nós quem queria ver as atracções.
Somos fotografados em animados grupos que se pasmam pelo arrojo das nossas viagens e a estranheza das nossas feições. Somos nós os alienígenas e assim seremos lembrados, grandes mas a sentirmo-nos pequenos.
Voltar a casa de uma viagem é ser Gulliver na imaginária ilha índica de Lilliput.
Sem que o tenhamos forçosamente percebido na altura em cada dia passado a viajar, fomos crescendo muito com o que vimos, com as pessoas que conhecemos tão magnânimes e as enormes partilhas. E por isso, regressado, observa tudo com o alcance que a sua nova dimensão lhe permite.
Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura...
(Alberto Caeiro, «O Guardador de Rebanhos»)
Das viagens regressamos gigantes, capazes de escrever histórias de fantasias vividas. Somos maiores agora e vemos bem mais longe. Crescemos