Adeus
Adeus… esta é uma das palavras que estará sempre ligada à viagem.
Um Adeus tem sabor de final, de algo que termina, temperado com sal escorrido pela face, numa gota que parece hesitar ao chegar à maçã do rosto, apenas para depois se precipitar e acelerar até lá abaixo, num ímpeto de coragem. Porque é preciso coragem para partir — mais será exigida a quem fica, dirão —, um Adeus é um acto de força.
É com ela — Adeus — que muitas viagens começam, num aceno que vai ficando cada vez menor no espelho da moto, indiferente às palavras nele escritas — «Things may look closer than in reality». Escolhemos acreditar nisso, que teremos perto de nós essas pessoas que acenam, que pedem a algo maior que nos proteja, que nada de mal nos aconteça. Atormentam-se no que desconhecem e, como na Fé, confiam a-Deus o destino de quem amam.
E ainda que seja o grito de partida, Adeus é o fim de muita coisa para o viajante de moto. É o fim de uma rotina vivida em volta das mesmas coisas. Secretamente, no nosso capacete ao longo das horas infindas em que estamos apenas connosco mesmos, desejamos que ao regressarmos tudo esteja como quando partimos, movidos a nostalgia e saudade. Que aquela nossa caneca de café esteja arrumada no mesmo sítio, junto à máquina sofisticada que tira cappuccinos e faz espuma de leite. Terá apenas mais algum pó por cima. «Nada que um sopro, não resolva», pensamos.
Mas a maior angústia que este Adeus — fim e começo num só — encerra, é o das relações humanas que não voltarão a ser as mesmas. O pai, mãe, filha, amante — o mesmo que se recusara a dizer Adeus, trocando-o por um teimoso «Até já» — estarão iguais, como a caneca de café. O problema é que nós mudámos. Bebemos demasiados cafés simples, feitos ao calor da pequena fogueira protegida pela tenda, ou com a água do riacho gelado que nos embalou na noite anterior. Aquele café simples, sem espuma de leite, sem sofisticação alguma — apenas café.
E assim apercebemo-nos que tudo o que vimos, todas as pessoas que conhecemos e as novas perspectivas que ganhámos com elas, os medos que enfrentámos, o pouco com o qual vivemos — tudo — nos mudou. A nós, que pedíramos a-Deus que tudo ficasse igual para nos aconchegar no regresso. E porque as orações de cada Adeus foram atendidas, nada voltará a ser o mesmo, porque tudo ficou na mesma — menos nós e logo nós, de quem não podemos fugir.
Por isto tudo, Adeus.