Lembro-me de um grande amigo dizer-me que, quando volta a Portugal e a Lisboa, cidade natal, gosta de percorrer as páginas dos guias de viagem da sua cidade para descobrir maravilhas escondidas debaixo dos olhos.
Quantas vezes não precisamos que venha alguém de fora para nos lembrar quão excepcional é aquilo que temos? Alguém que, como os alemães e ingleses da Touratech AG, se deslumbra com as serranias recortadas pelos trilhos que hoje compõem a edição inaugural do Adventure Country Tracks. Ou como o Jorge e a Anabela a viver em Luxemburgo que, apesar de terem planos para percorrer todo o mundo de mota, escolheram Portugal, para o redescobrir.
Uma «Estrada da Morte», como a do Peru, pertence ao imaginário dos viajantes de moto. Habituámo-nos a ver estas obras de engenharia como um objecto de desejo do aventureiro, pela audácia com que se adentra nelas para, depois de feita, a pendurarmos sobre a lareira, junto ao peixe empalhado de meio-palmo, o mesmo que, em inúmeras conversas de bar, jurámos aos nossos amigos ter quase dois metros.
A estrada da morte que Portugal hoje tem não inspira nem aventura, nem nada de bom, para esse efeito. Fala de pânico, destruição e impotência, de algo que já não existe. E, ao ler as páginas desta TREVL e das histórias e percursos que partilham, sentimos que Portugal ficou mais pobre. As mesmas serras, praias fluviais e caminhos vestem-se de negro, de luto. Damos por nós a reconhecer o valor do que tínhamos agora que o perdemos — e apenas agora, como se uma maldição fosse. Mas não é. Depende de cada um de nós partir à descoberta de Portugal, de o viver, procurando os trilhos e aldeias remotas envoltas na floresta e trazer vida a estes locais para tornar a sua memória mais forte. E uma mota continua a ser uma forma óptima para o fazer.
Esta revista continua a ser dos Portugueses, feita por eles, contada a nós todos. É uma afirmação de orgulho. Como o é o trabalho do Filipe Elias com o ACT, em Portugal e lá fora. Ou o espírito de viajante do Tiago na Indochina, ou a camaradagem de um grupo de amigos por Marrocos, o reino que não cansa. A Anabela e o Jorge partem para o Japão por terra, mas apenas após terem dedicado uma viagem por Portugal, para que, ao percorrerem a Europa e Ásia, saibam melhor falar do seu País com o brilho nos olhos dos sonhadores. TREVL – de moto pelo mundo e por Portugal