Desde a última TREVL, o que aconteceu pelo mundo? Ah! houve eleições presidenciais nos EUA, um país com viagens publicadas na edição Outono-Inverno 2016 e nesta mesma. Li nos jornais que o Parlamento Europeu aprovou a reintrodução de vistos para os norte-americanos, uma medida em resposta à exigência dos EUA pedirem vistos para cinco países da União Europeia — Bulgária, Croácia, Chipre, Polónia e Roménia.
Um olhar mais atento às notícias leva-nos a um país posicionado em 133.º (em 134) no Social Progress Index, indicador no qual os países europeus e os EUA (16.º) desfilam no topo da lista liderada pela Noruega e Suécia. Trata-se do Cazaquistão, uma nação da antiga URSS, que se junta aos vizinhos Quirguistão (93.º) e Usbequistão (90.º) alargando a lista de países cujos cidadãos estão dispensados de vistos de turismo para entrar nos seus territórios. Aparte o pormenor delicodoce de Portugal apenas estar abrangido se o viajante tiver mais de 55 anos de idade (para o Usbequistão), é uma medida no caminho certo.
Outro aspecto curioso dos tempos recentes são as «falsas notícias» (fake news). Tudo aquilo que acabámos de escrever no parágrafo anterior pode ser uma grande patranha — foi verificar ou confia na nossa redacção? Se foi, descobriu que, na verdade, o Cazaquistão ocupa o 83.º lugar, e não o 133.º posto. E haverá realmente um Social Progress Index, ou não é mais que uma invenção para me ajudar a provar um argumento? E será o Chipre realmente um país da UE?
Habituámo-nos a tirar muitas conclusões com base no pouco que lemos. A informação é um bem precioso para o viajante, ditando as suas escolhas e, por vezes, as probabilidades de sobrevivência, se procurarmos um tom mais dramático.
— Sabes quais são as notícias que mais te interessam? — perguntava-me um amigo repórter. Respondi-lhe então que eram aquelas sobre viagens. — Errado! — corrigiu-me, de imediato. — São aquelas sobre alguém que podia ter sido tu.
Talvez seja essa a razão que me leva a escrever este editorial — porque tudo isto que acontece pode ser connosco, viajantes. É uma visão centrada em mim mesmo — egoísta, portanto —, mas da natureza humana, como se tratasse de uma fatalidade, inevitável, um fado, se quiserem.
Há uma responsabilidade que devemos ter para nós sempre que atravessamos uma fronteira nas nossas viagens — a de mostrar que somos todos parte do mesmo, muito para além de geografias, línguas, credos e côr da pele. Não são ideias novas, mas continuam a precisar serem ditas em voz alta. Não há inevitabilidades aqui — a forma como cada um de nós se prova em viagem pode fazer a diferença.