Primavera 2016
Edição #9

Muitos cheiram a papel velho. Aos cantos dobrados ou ausentes falta-lhes a turgidez dos mais novos. Os meus não têm a nobreza nem o sangue azul dos protegidos pelas vitrinas no museu. Não são inéditas as denúncias por maus-tratos e abusos repetidos. Enrolados, dobrados, amarfanhados, de tudo sofrem para caber no interior do blusão, numa bolsa transparente sobre o depósito de combustível. Encarquilham-se com as gotas de chuva descaradas que vão caindo enquanto procuramos com o dedo o melhor caminho, em conversas de línguas que não se entendem.
Lá se arranja forma que saia uma linha sobre a carta, na esperança que aquela nos leve onde queremos. E se não levar, o mapa é o suspeito do costume — culpado, sem dúvida — de nos largar às portas da próxima aventura.

Há quem tenha crescido a sonhar lendo livros fantásticos. Eu sempre me deixei enfeitiçar pelos mapas. E esta edição, impressa no mais moderno dos tempos, tem o aroma de uma sala escura no alfarrabista. São como portais para outra dimensão. Valem mais pelo que escondem, pela insinuação do que não se mostra, como o ombro desnudado numa fotografia erótica do início do século xx.
As histórias que trazemos passam-se nas Arábias de Xerazade, na Rota da Seda de Marco Polo, nas águas de Afonso de Albuquerque, nas florestas húmidas de Stanley e Livingstone. Há um mapa para todas e para cada uma. Desenhámo-los à mão, com um pincel e lápis, anotando as desventuras dos nossos autores-viajantes portugueses. Pode ser saudosismo, a roçar a teimosia — uma revista impressa, em papel, com mapas rabiscados e traços garatujados.

Dá-nos alento imaginar uma TREVL a envelhecer bem numa prateleira, assentando-lhe os anos que dão outra força às aventuras que encerra. As páginas, agora com o aroma dos velhos mapas, cobrem-se do mesmo pó dum bom vinho velho. Tira-se a rolha e deixa-se respirar, admira-se. E até se desculpa a roda deixado pelo copo sobre o mapa. Afinal, dá-lhe vida, encerra mais uma história sentida.

Deixa estes mapas levar-te até lá, bem longe, e cede ao encanto — mas não ao engano — de acreditares ser aquele aventureiro, português, de moto pelo muno.
Publicado a 28-03-2016
Capa #09
Capa #09
«A Leste»
«A Leste»,
por Rita Tavares Romão
«Coordenada X»
«Coordenada X»,
por Pedro Monteiro («Coordenada X»)
«Up I Go, Luanda a Lisboa»
«Up I Go, Luanda a Lisboa»,
por João Gomes («Up I Go, from Luanda to Portugal»)
«Um Gorila na Bruma»
«Um Gorila na Bruma»,
por Carlos Azevedo («Até ao Fim do Mundo»)
«Mr. Mota Eastbound»
«Mr. Mota Eastbound»,
por Pedro Marques («Mr. Mota Eastbound»)
«Lisboa - Dili»
«Lisboa - Dili»,
por Rui Correia («Lisboa-Dili»)
«Istão avisados»
«Istão avisados»,
por João Pedro Fernandes («TREVLer»)
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